16.3.08

Vaivém de idéias*

Pouco antes da fuga de Portugal, Antônio de Araújo, futuro conde da Barca, mandou colocar no porão do navio que o traria para o Brasil as tipografias que haviam sido compradas na Inglaterra para a Secretaria de Estrangeiros e da Guerra, de que era titular. Ao chegar no Rio de Janeiro, em 1808, mandou instalar todo o equipamento no porão de sua casa. Esse mesmo equipamento seria usado quando D. João criasse, em maio daquele ano, a Impressão Régia, dando início, com séculos de atraso, à impressão de livros, jornais e documentos no Brasil. Cabia à Impressão Régia imprimir toda a legislação e papéis diplomáticos de qualquer repartição do governo real, além de livros ou jornais. As tipografias trazidas de Portugal cumpriram seu papel com grande produtividade, imprimindo, entre 1808 e 1821, 1000 publicações, numa média de 6,5 impressões por mês.

Em setembro do mesmo ano, D. João instituía a censura prévia, que deveria ser exercida pelo Desembargo do Paço, um organismo censor para a fiscalização de livros e demais publicações. Criada no século XVI, a censura tinha tradição em Portugal, o que explica D. João ter estabelecido o sistema assim que chegou para controlar a divulgação de idéias iluministas e libertárias, extremamente nocivas à manutenção do absolutismo.

Para o Rio de Janeiro, foram nomeados quatro censores, que se revezavam na tarefa de encontrar nos livros indícios contra a religião, a moral e o soberano. Mesmo contando com o auxílio do intendente geral de Polícia, sua eficácia foi prejudicada pelos desentendimentos e pelas vaidades dos censores, que não abriam mão de seus pontos de vista, certos que isso desmereceria suas inteligências.

Para fugir do crivo da censura, o Correio Braziliense, primeiro jornal a circular no Brasil, era publicado em Londres. Seu fundador, o gaúcho Hipólito José da Costa, deixou o país com 16 anos para estudar em Coimbra. Em junho de 1808, morando na Inglaterra, criou o jornal, que tinha cerca de 140 páginas e transmitia as idéias de seu editor. Hipólito era um homem que acreditava numa constituição que limitasse os poderes do rei e garantisse os direitos individuais, a liberdade de imprensa e de religião. Mas foi esse mesmo defensor da liberdade de expressão que aceitou dinheiro de D. João para não publicar opiniões mais radicais em relação ao governo. O acordo foi negociado em 1812 pelo embaixador português em Londres e previa o repasse de uma pensão anual a Hipólito, em troca de críticas mais amenas ao governo de D. João, a quem, mesmo antes de receber qualquer quantia, sempre tratou com respeito. Nascia o fisiologismo na relação entre Estado e imprensa no Brasil.

Mas o primeiro jornal publicado realmente em território nacional foi a Gazeta do Rio de Janeiro, que começou a circular em setembro de 1808, impresso nas máquinas trazidas de Lisboa. Tinha formato pequeno, com quatro páginas e, para que pudesse circular, deveria trazer em suas páginas somente notícias favoráveis ao governo, como notícias sobre a família real, atos oficiais e anúncios. O Correio e a Gazeta eram projetos quase antagônicos. Enquanto um era pequeno e mais informativo, o outro era enorme e bastante doutrinário. Além disso, o primeiro, por não ter concorrentes oficiais, não tinha a preocupação da publicação de Hipólito, de conquistar novos leitores.

Comparar este primeiro momento da imprensa no Brasil com os 278 jornais editados em Londres no mesmo período mostra como a circulação de idéias era restrita no país. A fundação da Impressão Régia foi, no entanto, essencial para que esse quadro começasse a mudar. Desde a abertura dos portos, o contato com estrangeiros aumentava, assim como o número de pessoas atentas às transformações que aconteciam mundo afora. Em 1815, a autorização para a instalação de tipografias na Bahia e em Pernambuco permitiria que essas novidades que chegavam de todo o mundo, sob a forma de livros ou jornais, circulassem com mais facilidade.

Em março de 1821, a censura era suspensa com a expedição do decreto sobre a liberdade da imprensa no Brasil. Enquanto a Constituição que estava sendo formulada pelos portugueses não especificasse as regras sobre o assunto, D. João achava melhor revogar a censura prévia. A imprensa, gozando agora de mais liberdade e do crescente número de jornais, engajava-se em sua primeira grande campanha. A independência era questão de tempo.


* Obs.: Este é um dos capítulos escritos por mim para o meu primeiro livro, sobre os 13 anos de estadia da família real no Brasil. Infelizmente, esse e alguns outros capítulos ficaram de fora do livro. Publicarei todos aqui, aos poucos, para que o trabalho fique completo. O livro chama-se Ponha-se na rua: fatos e curiosidades do Rio de Janeiro de D. João VI e é essencialmente um livro de fotografias misturadas com pinturas da época, de artistas como Debret e Rugendas. O idealizador do projeto é o fotógrafo Ricardo Siqueira, que contratou a mim e ao também jornalista Adriano Belisário para escrever os 27 capítulos do livro.

14.3.08

Carioca way of life*

O cotidiano dos cariocas na intimidade do lar ou mesmo no comportamento público chocou não só os portugueses que acompanharam D. João como também os viajantes estrangeiros que por aqui passaram nas primeiras décadas do século XIX. Os costumes à mesa, a maneira de se vestir, o que faziam e como se comportavam nas ruas. Saber os detalhes desse dia-a-dia só é possível graças aos relatos escritos por esses viajantes e às cartas de alguns portugueses para seus familiares na Europa.

As famílias passavam a maior parte do tempo na parte de trás das casas. As altas temperaturas obrigavam todos a abandonar qualquer regra de etiqueta, a começar pelo excesso de roupa a que os portugueses estavam acostumados. As refeições eram feitas em uma tábua colocada sobre cavaletes, usada como mesa. Talheres eram exclusividade masculina, assim como a mesa propriamente dita. A mulher podia colocar o prato sobre os joelhos, mesmo sentada à mesa, mas sem usar talheres. As crianças pegavam com os dedos a comida e se lambuzavam, sujando o rosto e pescoço.

No cardápio dos nobres, sempre uma versão simplificada dos banquetes servidos nos palácios reais, havia entrada, prato principal e sobremesa. Depois da abertura dos portos, cresceu o consumo de artigos importados, como queijos holandeses e ingleses. À medida que descia o nível da pirâmide social, descia também a diversidade de alimentos na mesa. Um pedaço de carne seca era o ingrediente principal da sopa, sempre misturada com feijão e mandioca. A diferença nos hábitos alimentares era ainda maior em relação aos escravos. Dois punhados de farinha seca, umedecidas na boca por suco de banana ou laranja, costumavam ser sua alimentação diária. Mesmo assim, a abundância de frutas e peixe à disposição de todos facilitava para que a dieta ficasse mais rica.

Assim como os hábitos durante as refeições, a moda também contrapunha as posições sociais. A maior parte da população, formada por pessoas pobres, escravos e alforriados, adotava estilo mais adequado ao calor brasileiro, preferindo chinelos, roupas leves, saias curtas, de tecido o mais fino possível. No caso dos escravos, era raríssimo encontrar algum que tivesse sapatos. Para os portugueses que chegaram fugidos, a moda mudou muito pouco nos primeiros anos de estadia no Brasil, já que a maioria conservou durante anos suas roupas trazidas da Europa, como se assim também mantivessem os vínculos com Portugal.

A imitação de modismos estrangeiros para ficar a altura da família real e dos nobres que com ela tinham vindo dava muito trabalho às brasileiras de classe média. A correria às costureiras tinha começado antes mesmo da chegada, quando vestidos de cetins e sedas foram encomendados para a recepção. A decepção foi grande quando viram a princesa Carlota e todas as damas de seu navio desembarcarem usando enormes turbantes, item do vestuário que nem sonhavam em usar. Não sabiam que, na verdade, uma infestação de piolhos tinha obrigado as mulheres a raspar os cabelos e a lançar suas perucas ao mar. As cabeças carecas, untadas com banha de porco e pulverizadas com polvilho, eram escondidas pelos turbantes. Não era última moda em Lisboa, mas passou a ser no Rio de Janeiro.

Porém não eram apenas os costumes entre quatro paredes que destoavam dos europeus e chocavam os viajantes em seus relatos. As pessoas, de todas as classes, sexos e cores tinham o hábito de escarrar em público e às vezes também dentro de casa. Outro traço curioso era o modo de andar na rua. Nas classes médias e altas, a simples ida de uma família a igreja era feita em fila. Na frente, o pai, seguido dos filhos, ordenados do mais moço ao mais velho. Atrás, a mãe com sua criada de quarto, que geralmente era escrava e mulata, já que as negras não eram consideradas aptas para exercer a função. Seguindo o grupo, em linha reta, o número de escravos podia variar. Quem mais negros tivesse a seu encalço, mais abastado pareceria. Por isso, era comum nobres e ricos comerciantes andarem com 12, 15 escravos como sinônimo de status.

A rotina dos homens dependia muito da atividade que exerciam, mas sempre sobrava tempo para almoçar em casa e fazer uma sesta de até três horas. As mulheres, sentadas em roda, passavam o dia juntas e faziam bordados e outros trabalhos manuais. Engana-se quem pensa que só os homens trabalhavam. Nas casas dos que não tinham recursos para ter escravos, tudo dependia delas. As freqüentes festas religiosas, procissões, quermesses e romarias também ocupavam muito do seu tempo, que já era dividido em função de toda a família.

Mas se a intimidade indecente do Rio de Janeiro de D. João VI era capaz de chocar, também conseguia impressionar e seduzir. Os relatos dos viajantes são, com algumas exceções, descrições entusiasmadas sobre os modos peculiares do carioca se relacionar e agir. Há 200 anos, já estava enraizado o carioca way of life.


* Obs.: Este é um dos capítulos escritos por mim para o meu primeiro livro, sobre os 13 anos de estadia da família real no Brasil. Infelizmente, esse e alguns outros capítulos ficaram de fora do livro. Publicarei todos aqui, aos poucos, para que o trabalho fique completo. O livro chama-se Ponha-se na rua: fatos e curiosidades do Rio de Janeiro de D. João VI e é essencialmente um livro de fotografias misturadas com pinturas da época, de artistas como Debret e Rugendas. O idealizador do projeto é o fotógrafo Ricardo Siqueira, que contratou a mim e ao também jornalista Adriano Belisário para escrever os 27 capítulos do livro.

23.2.08

Os dois lados de Carlota*

A imagem de Carlota Joaquina que prevalece, em Portugal e no Brasil, é de uma rainha devassa, promíscua, má, invejosa e até assassina. No entanto, a principal personagem feminina do Rio de Janeiro da época pode ter sido vítima de uma historiografia machista e tendenciosa. O estudo de suas cartas feito nos últimos anos mostra um lado da pouco mostrado pela história oficial. Conhecida pela inteligência, perspicácia e grande capacidade de articulação política, a mulher das cartas também é culta, amorosa, maternal e grata. Obstinada e apaixonada pelo jogo político, Carlota foi o tipo de mulher, como gostam de dizer alguns de seus biógrafos, com “alma masculina”. Tinha prazer em tomar decisões e dar ordens, causando estranhamento até mesmo em seus aliados, não acostumados a lidar com uma mulher tão independente para a época. Ser uma mulher tão diferente das do seu tempo pode ter influenciado a história a trata-la com preconceito.


Neta de Carlos III, filha de Carlos IV e irmã de Fernando VII, todos reis da Espanha, Carlota nasceu em 1775 em um dos períodos mais gloriosos da monarquia espanhola. Aos dez anos, deixava a corte para se encontrar com D. João, que tinha dezessete, com quem havia casado por procuração. O casamento, marcado por sucessivas crises, foi agravado com sua participação em uma conspiração para tentar destronar o marido. A gota d’água em sua relação com o marido foi a fuga para o Brasil, decisão por que nunca o perdoou. Cruzar o Atlântico significava se afastar de seus amigos, familiares e do círculo de poder europeu.


No Rio, Carlota se isolou em Botafogo, distante do marido e da possibilidade de fazer e ser alvo de intrigas. O cotidiano na cidade era tão difícil quanto em Lisboa. Começou a sofrer de uma violenta asma, que tirava seu ânimo para circular pela cidade, e era bastante hostilizada pelos que percebiam como estava enfraquecida politicamente com o gabinete do marido. Cada agressão que recebia reforçava seu caráter severo e intransigente. Só ia a São Cristóvão em cerimônias que não podia faltar, mas isso não a impediu de protagonizar mais articulações e acordos políticos que o próprio D. João.


Quando, ainda em 1808, sua família foi afastada do poder por Napoleão, envolveu-se na maior de todas as suas disputas políticas. Ver a Espanha ser humilhada e as colônias espanholas na América caminharem rumo à independência fez com que travasse duas batalhas políticas ao mesmo tempo: retomar a coroa espanhola para sua família e assegurar a posse das colônias. Acusada de querer somente o poder e estimular a independência da região para se tornar a nova rainha, suas cartas trocadas com aliados no Brasil, na Espanha e nas colônias mostram como tinha o desejo sincero de defender os interesses da Casa de Bourbon e não somente a conquista do poder pelo poder. Teoricamente, Carlota estava apta a ser a rainha da Espanha, já que toda sua família estava aprisionada por Napoleão. Seu empenho a levou a vender parte de suas jóias para ajudar sua campanha em Montevidéu, mas o retorno de seu irmão Fernando VII ao trono pôs fim aos planos.


Sua atuação política continuou ao retornar à Europa, em 1821, e se negar a assinar a Constituição liberal portuguesa, alegando que um soberano não deveria se subordinar a ordens de vassalos. Perdendo os direitos políticos e o título de rainha, foi isolada na Quinta do Ramalhão, perto de Cintra, só voltou ao poder no apoio que deu para que seu filho D. Miguel fosse proclamado rei de Portugal. Mãe do rei, morreu em 1830, cercada de poder e glória como nunca teve enquanto foi ela a rainha.


Quanto a sua vida amorosa, pode ter sido bastante animada, se os boatos que a taxavam de promíscua e ninfomaníaca forem verdadeiros. Além da suspeita de que D. João não era o pai de seus últimos filhos, teria sido amante do Marquês de Marialva, do almirante inglês Sidney Smith, e até do diretor do Banco do Brasil, Fernando Carneiro Leão. Este caso lhe rendeu até uma suspeita de homicídio, quando a mulher de Fernando, Gertrudes Pedra Carneira Leão, foi assassinada a tiros ao chegar em casa. Mas nem o assassinato, nem os outros casos possuem provas que o tornem dignos de crédito.


Certo era seu ódio pelo Brasil, daí explicada a antipatia histórica nutrida por ela no Brasil. Pouco antes da partida de volta para Lisboa, em 1821, teria tirado os sapatos no porto e batido as solas no chão, para não levar nem a terra “do maldito Brasil”. Tirando isso, as outras acusações feitas a Carlota, sobre seu caráter e personalidade, dependem da boa vontade da interpretação histórica. Os que amam e odeiam Carlota só entram em consenso sobre sua inteligência, força e destreza para o trato político. Isso, independente da versão histórica, ela tinha de sobra.


* Obs.: Este é um dos capítulos escritos por mim para o meu primeiro livro, sobre os 13 anos de estadia da família real no Brasil. Infelizmente, esse e alguns outros capítulos ficaram de fora do livro. Publicarei todos aqui, aos poucos, para que o trabalho fique completo. O livro chama-se Ponha-se na rua: fatos e curiosidades do Rio de Janeiro de D. João VI e é essencialmente um livro de fotografias misturadas com pinturas da época, de artistas como Debret e Rugendas. O idealizador do projeto é o fotógrafo Ricardo Siqueira, que contratou a mim e ao também jornalista Adriano Belisário para escrever os 27 capítulos do livro.

28.9.07

O bigode e as escrituras




Quem passar à noite entre a Rua da Quitanda e a Avenida Rio Branco vai se impressionar com o pouco mais de um metro e meio de um homem capaz de carregar durante toda a madrugada até cinco toneladas (seu recorde até hoje) de papel branco e papelão recolhidos naquele trecho. Carregando seu burrinho sem rabo, nome que os catadores dão aos carrinhos em que empilham quilos e quilos de papel para levar ao depósito em outro ponto do Centro, Seu Pedro esquece seus 60 anos e ziguezagueia pela escuridão da noite da cidade. “Todo mundo me conhece aqui. Ficam a noite toda chamando o velho pra cá, o velho pra lá”, diz Seu Pedro, com um sorriso de pouquíssimos dentes.

Prestes a embarcar rumo à Paciência, sem trocadilhos


Pedro Monteiro de Moraes nasceu em Ferreiros, cidade a 109 quilômetros de Recife, entre o litoral e a Zona da Mata nordestina. Trabalha desde os sete anos no canavial, mas conseguiu levar a escola até a 5ª série. Daí para frente, ficou difícil e nunca mais conseguiu estudar. A leitura, no entanto, está em dia há 12 anos, quando se tornou evangélico e passou a ler com grande afinco as escrituras sagradas. Três anos antes de começar a freqüentar os cultos, Seu Pedro tinha começado a trabalhar nas ruas do Centro catando papel. Era pedreiro desde 1968, quando chegou ao Rio, com 19 anos. De lá até se tornar catador, foi e voltou de Ferreiros algumas vezes. Quando estava desempregado por aqui, pegava o ônibus, enfrentava 48 horas de estrada e voltava para o canavial. Passava um tempo por lá e retornava, insistindo em tentar uma vida melhor no Rio. Numa dessas idas, conheceu dona Vilma, paraibana de Orvalho, sua mulher há mais de 30 anos. Tiveram cinco filhos, quatro meninas e um menino, pouco menos que os sete dos pais de Seu Pedro.

Quase tão longo quanto o casamento é o tempo que Seu Pedro trabalha como catador. Há 15 anos, um quarto de seus 60, ele foi demitido de uma construtora em que trabalhava. Estava começando a desenvolver uma doença que o acompanha desde então, a úlcera varicosa, que deixa os pés extremamente inchados e pode causar feridas enormes. A única forma de tratar a doença é, além de usar a medicação indicada, deixar as pernas levantadas permanentemente. Talvez seja por isso que já convive há tanto tempo com a doença. A construtora alegou na época que ele não conseguiria calçar sapatos, condição que consideravam básica para que alguém trabalhasse como pedreiro. Foi aí que um conhecido, bem mais velho que ele, catador de papel entre a Rua da Quitanda e a Avenida Rio Branco, o levou para trabalhar no Centro. Quando o amigo morreu, Seu Pedro assumiu seu ponto e lá trabalha até hoje. “Deus me apontou uma saída”, conta, animado.

Seu Pedro sempre foi uma pessoa muita religiosa. Católico desde criança, se tornou evangélico por sentir falta de ler a Bíblia, prática pouco incentivada no catolicismo. Sua primeira Igreja foi a Assembléia de Deus, mas saiu de lá há três anos quando exigiram que ele raspasse o bigode. “Se Deus me deu bigode, com certeza é porque ele me queria assim.” Foi para a “Deus é amor”, onde está até hoje, lendo as escrituras. E com o bigode intacto.

Vendo a rotina de Seu Pedro, parece faltar tempo para estudar a Bíblia. Chega todo dia às quatro, cinco da tarde no Centro. Vai até o depósito de papel, na Rua dos Inválidos, 96, troca de roupa, e se dirige ao ponto em que trabalha. Começa a recolher o papel e, até duas da manhã, já catou tudo que podia. Seu Pedro sempre é o primeiro a chegar na fila do depósito, que só abre às cinco e meia. Aproveita o vazio da rua, pega alguns papelões, monta uma barraquinha e dorme até a chegada de Seu Armindo, o dono do depósito. Depois de receber o dinheiro pelo que juntou durante toda a noite, Seu Pedro se veste, toma um café preto em algum bar do Centro e vai para a Central do Brasil. Já são quase sete horas quando embarca para Paciência, na Zona Oeste, onde mora. Chega em casa um pouco antes de nove, toma mais um café, e dorme o sono dos justos, que será interrompido por volta de meio-dia, quando acorda.

Quando Seu Pedro está pegando no sono após praticamente não dormir a noite toda, Seu Armindo, o dono do depósito, que dormiu a noite toda, está apenas começando seu dia de trabalho. Aos 42 anos, chegou ao Brasil com doze, vindo de Portugal, onde nasceu. Na falta de perspectivas, se tornou catador de papel. Conseguiu juntar dinheiro e comprou seu depósito anos atrás. Hoje, não cata mais, apenas compra a peso todo o papelão e papel branco recolhidos pelos catadores. Oferece, além do carrinho, um banheiro com chuveiro para que eles possam tomar banho antes de voltar para casa. Quando todos os catadores já venderam o que tinham, Seu Armindo vai para a Praia do Caju. É a sua vez de vender o que comprou. Sem informar por quanto vende as toneladas compradas, admite por quanto compra. Por um quilo de papel branco, paga 32 centavos. Já pelo quilo do papelão, paga um pouco mais, 35 centavos. De grão em grão, trinta anos depois de ter chegado, Seu Armindo conseguirá este ano mandar as duas filhas para Portugal. Vão estudar.



O depósito de seu Armindo - rua dos Inválidos, 96

Seu Pedro pensa parecido. Quando perguntado se aconselharia um parente de Pernambuco a vir para o Rio de Janeiro tentar a vida, como ele fez há quase quarenta anos, fala em alto e bom som: “Cai fora que é roubada.” Seu sonho e o de Dona Vilma é voltar para Ferreiros, mas não querem ir sem um pé-de-meia. Está trabalhando para isso e, tem certeza, um dia consegue voltar. Para ele, o Brasil não tem jeito e Ferreiros, sendo uma cidade pequena, pelo menos é mais tranqüilo. “Dá pra conviver melhor com as dificuldades”. Ano passado, ano de eleição, Seu Pedro e vários catadores de papel do Centro foram convidados para viajar a Brasília e visitar o Palácio do Planalto, onde seriam recebidos pelo presidente Lula. Seu Pedro não quis ir. “Ele ia fazer alguma coisa pra melhorar minha vida?”. Há doze anos que não vota e nem se lembra dos nomes dos candidatos a presidente da última eleição em que votou, em 1994. Prefere se preocupar com assuntos que julga realmente interferirem em sua vida. As escrituras e o bigode, por exemplo.

24.9.07

As referências usadas pelos Simpsons

Para os fãs de Simpsons, este site é uma boa. Mostra algumas cenas de cinema que já foram parodiadas pelo desenho, como a da foto abaixo.

É só clicar aqui.

Stanley Kubrick

19.9.07

Cacciola: algumas linhas

Coloquei abaixo algumas observações sobre o caso Cacciola, muitas delas já feitas pelos jornais. Mas nunca é tarde, mesmo que sejam lidas apenas pelos meus 2½ leitores (além da minha mãe e da minha irmã, o desespero é tanto que agora obrigo minha cachorra a ler o blog):

- Será uma ótima oportunidade para o Judiciário brasileiro mostrar seu vigor e, acima de tudo, sua natureza apartidária. Ou não. Pode ser também o aprofundamento da dúvida de que trata-se, na verdade, de uma esfera cooptada por determinadas forças políticas de bico longo e bela plumagem. Vale lembrar aos menos ligados que, entre os condenados, está o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, que comandou o banco em 1999 e foi Diretor de Política Econômica e Monetária durante três anos (1995-1998). Em função do Plano Real, o cargo foi/era estratégico para o sucesso/fracasso do governo tucano. Francisco Lopes recorreu da sentença, assim como todos os outros condenados (Demosthenes Madureira de Pinho Neto, ex-diretor da área intenacional do BC; Tereza Grossi, ex-chefe e ex-diretora de Fiscalização do BC; Claudio Mauch, ex-diretor de Fiscalização do BC; Luiz Augusto Bragança, amigo de infância e ex-sócio de Francisco Lopes na consultoria Macrométrica; Luiz Antônio Gonçalves, ex-presidente do Banco FonteCindam e Roberto Steinfield, ex-controlador do FonteCidam). O TRF da 2ª Região (RJ e SP) julgará a sentença ainda este ano. É só esperar para vermos no que vai dar. Será que o Judiciário mostrará a mesma intolerância com a corrupção que demonstrou com os mensaleiros?

- interessa a Mônaco mudar a reputação do país perante a opinião pública internacional de que o principado seria condescendente com o crime. As aspas da procuradora-geral Annie Brunet-Fuster no Globo de hoje mostram isso. A decisão final caberá, segundo ela, ao príncipe.

- ao governo interessa ter esta carta na manga para sangrar um pouco a oposição. Relembrar um dos vários casos de corrupção do governo FHC pode ser lucrativo para o governo e, ao mesmo tempo, perigoso, já que depende da boa vontade da oposição para aprovar matérias importantes como a CPMF, que deverá ser votada hoje.

- Vale lembrar que, na época, o será-que-ainda-admirável senador Aloízio Mercadante foi um dos principais denunciadores do escândalo Marka-FonteCidam. Merval Pereira, no Globo de ontem, cita o escritor Gilberto de Mello Gujawski que, por sua vez, ao comentar tese do sociólogo Chico Oliveira, disse que "o maior mal que o governo Lula está provocando no país é a esterilização política pelo 'seqüestro' dos principais agentes mobilizadores (...) que foram vencidos pelo corporativismo e pelo particularismo." Como diria o Ancelmo Góis, é, pode ser.

Bom, isso é tudo, pessoal.