
Ontem, durante a mesa "Sequências brasileiras", que juntou Chico Buarque e Milton Hatoum, uma cena absurda deixou os seguranças da Tenda do Telão sem saber o que fazer, mas foi a imagem que melhor traduziu o sucesso que a dupla fez. Um homem, embriagado não se sabe se pela bebida ou se pelo afã de ver Chico, escalou a estrutura metálica da tenda e se postou cerca de três metros acima do público. Teve, sem dúvida, visão privilegiada. Ao fim da mesa, porém, foi levado pelos seguranças para o posto policial montado próximo às tendas.
4.7.09
Tudo por Chico
3.7.09
Uma arte (que talvez não seja) universal
Ontem, acompanhando o repórter do Globo Miguel Conde, entrevistei Bernardo Carvalho, e ele observou que havia algumas diferenças fundamentais entre a sua literatura e a do afegão Atiq Rahimi, seu companheiro na mesa "O avesso do Realismo", na tarde de hoje (ao lado, na foto de André Teixeira). Pois foi uma delas que marcou o antagonismo, simpático, porém marcante, do papo da dupla, mediado pela competente crítica Beatriz Resende. Bernardo não acredita na universalidade da literatura, ou em sua capacidade de transpor barreiras e expor de forma incondicional a experiência humana.
"Na China, por exemplo, não há nenhum interesse na literatura brasileira. Não há uma passagem tranquila entre as literaturas de uma cultura para outra. Há uma disputa geopolítica subjacente. A imprensa americana adora dizer que a literatura morreu na França, pois isso interessa geopoliticamente àquele país", diz.
Discordando, Atiq o questiona sobre a condição humana, comum a todas as culturas. Bernardo rebate, sem trégua: "Há literaturas de resistência que não passam pelo humanismo. São paradoxos de difícil circulação", diz, contando em seguida a decepção que causou em nômades da Mongólia, cuja vida acompanhou durante dois meses, para produzir o romance Mongólia. O grupo cortou relações com o escritor ao ler seu romance e descobrir que, em vez de exaltar o modo de vida nômade, eles leram sobre a vida de um homem atormentado com um mundo em que não se reconhece.
"Essa coisa de literatura nacional é um pouco uma camisa de força. Acho que é uma tática de autodefesa de cada país. Enquanto outros países estão fazendo isso, a gente aqui no Brasil acha isso uma bobagem, acha que tem mais é que ser internacionalista", afirma Bernardo.
Lamentando não haver no Afeganistão sequer a noção de uma literatura nacional, Atiq lembrou que foi influenciado pela literatura persa e pela francesa. Por isso, ele se ligou na tradição do romance, que não existe em seu país de origem, muito mais forte na produção de contos e poesias:
"É uma pena não haver essa tradição no meu país. Escrever romances é puxar os limites da nacionalidade ao máximo", conclui.
2.7.09
Como ser verossímil, empático e emocionante
Ainda na mesa sobre as verdades inventadas, Beatriz Resende destacou também a coragem de Arnaldo e de Tatiana em expor as histórias de suas famílias. Arnaldo, por exemplo, mostra um lado negro de seu tio Adolpho Bloch. Mas a tarefa de Sérgio não foi menos extenuante, para ela, ao ter que mostrar uma face negra dos dirigentes comunistas Luiz Carlos Prestes e Antonio Maciel Bonfim, o “Miranda”, que lavaram as mãos em relação ao assassinato de Elza.
"Foi uma história que a esquerda não quis contar por motivos óbvios e a direita não conseguiu contar por incompetência. Sabia que o livro poderia incomodar muita gente, mas tive que ser desabusado em relação à divisão entre direita e esquerda", diz, lembrando que tentou fugir do reducionismo ideológico e quis contar a verdade da foram mais humana que fosse possível.
Arnaldo lembrou que a biografia definitiva é uma falácia. Mais um selo de venda do que algo factível, a ideia de que um livro pode reunir a totalidade da vida de uma pessoa é de uma pretensão sem fim.
"Isso é não reconhecer as subjetividades, não reconhecer as diferentes maneiras de ver uma cena. O livro que escolhi fazer foi bem diferente disso. Quis dar voz às subjetividades, deixando a pesquisa envolver todo esse universo de valores, sentimentos, sofrimentos. Não quis fazer uma redução purista sobre o tema", explica
Em resposta à pergunta da plateia sobre como tornar uma verdade inventada verossímil, empático e emocionante, Arnaldo apontou um único caminho: trabalhar o texto exaustivamente, escrevendo e reescrevendo. Ele, por exemplo, reescreveu seis vezes Os Irmãos Karamabloch. Completando, Sérgio lembrou frase do escritor norte-americano Don Delillo, “Literatura é uma palavra atrás da outra”, para explicar como ele consegue chegar a verdades inventadas com essas três características.
A pesquisa nas verdades inventadas
Beatriz, Arnaldo, Tatiana e Sérgio, em foto de André Teixeira, do Globo
Poucas mesas da Flip tiveram temas tão bem amarrados quanto a que reuniu ontem Arnaldo Bloch, Sérgio Rodrigues e Tatiana Salem Levy, com mediação da professora e crítica Beatriz Resende. Depois de um primeiro conto na coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, Tatiana partiu para um romance, o que está em discussão nesta Flip: A chave de casa, lançado em 2008. Em Os Irmãos Karamabloch, Arnaldo misturou romance e biografia, baseado na história da família Bloch e centrado na figura de Adolpho Bloch, dono da revista e da TV Manchete. Já em Elza, a garota, Sérgio Rodrigues criou personagens ficcionais para contar a história de Elza Cupello, assassinada pelo Partido Comunista na década de 1930. Cada qual a sua maneira, eles misturaram verdade e ficção e colocaram em xeque a todo momento esses princípios:
"Falar de verdades inventadas é tratar de literatura, pois é nisso que ela consiste", apresentou Beatriz.
Depois de cada um ler um trecho de seu livro, Beatriz levantou a questão da pesquisa nas obras do trio. Afinal, eles fizeram pesquisa, foram a campo apurar, seja na História, seja em fatos privados acontecidos, para dali criar ficção. Qual foi o peso dessas pesquisas na criação literária?
Arnaldo diz que o trabalho do livro começou bem antes do processo de escrever, já que ao longo de sua vida foi juntando memórias e experiências fundamentais para a obra. A gestação do livro foi de 2003 a 2008, já que a Companhia das Letras lhe deu um prazo extenso. Quase concluído, o livro, no entanto, estava seco, frio. O que fez o livro mudar foram duas gravações dadas por um primo, com depoimentos de duas tias de Arnaldo, cujos depoimentos eram ternos e com emoção. Isso o obrigou a reescrever tudo, dando ao livro esse calor.
Tatiana também localiza na infância o início da escrita de seu livro, quando ela conheceu a história de judeus turcos que eram expulsos, mas levavam a chave de suas casas na esperança de voltar. Um tio-avô de Tatiana foi um desses homens. Fez uma pesquisa leve sobre a época, além de entrevistar uma tia-avó idosa, que imigrou pequena para Portugal (Tatiana é portuguesa). Foi aí que chegou em um ponto estranho daquele caminho, que a fez repensar a própria literatura.
"Como escritora, me preocupo muito com a verdade, mas não um verdade dos fatos. Procuro uma verdade da literatura", diz.
A escrita, para Tatiana, é, como disse o Nietzche, transformar em sangue próprio todas aquelas histórias que eu tinha ouvido ou conhecido. A ida a Istambul (na época em que escreveu a obra, ela viajou à Turquia) foi, segundo ela, mais importante para sentir os cheiros e a cor da cidade do que para usar fatos da viagem para o romance.
Já Sérgio lembrou que a relação dele com o assunto sobre o que tratou em Elza era bem mais distante do que a de Arnaldo e Tatiana com seus temas. Não só ele não tinha nada a ver com a história de Elza e do Partido Comunista, como também o livro foi uma encomenda. Depois de receber carta branca do editor da Objetiva, decidiu entregar um livro completamente diferente do encomendado. Criou um livro híbrido, variando com diferentes tipologias os momentos de reportagem e os de ficção, cuja pesquisa teve papel fundamental.
"É importante dizer que ficção não é mentira e tampouco o que entendemos como realidade é verdade. Não é, até porque, é bom dar essa notícia, a realidade não existe", disse, arrancando risadas da plateia.
(Continua)
O making of de Talese*
Embora tenha respondido a apenas três perguntas na entrevista que concedeu a jornalistas no final da manhã desta quinta-feira, na Flip, Gay Talese falou durante uma hora e meia. Só a primeira pergunta, "Como você apura?", rendeu mais de 40 minutos de resposta, em que Talese, para responder, traçou uma espécie de making of de uma de suas reportagens, narrando com o mesmo ritmo encadeado e a riqueza de detalhes que lhe são característicos.
No final de 1999, Talese (ao lado, em foto de André Teixeira) não estava envolvido em nenhum projeto de livro ou na produção de nenhuma de suas habitualmente longas reportagens. À procura do que assistir na TV, parou para assistir à cobrança de pênalti de uma jogadora de futebol feminino chinesa, contra a seleção americana. Era um lance decisivo. Ao ver a menina perder a cobrança, Talese viu que ali havia uma boa história, pois naquele momento esteve em jogo bem mais do que um resultado de futebol. Se marcasse e derrotasse os Estados Unidos, ela poderia influir, por exemplo, no sentimento de seu país, uma potência ascendente, em relação ao outro, considerado por alguns uma superpotência em decadência. Será que ele sentira o peso dessa oportunidade? Que tipo de pressões ou punições sofrera?
Malas prontas, foi à China conhecer a jogadora, cuja história não pôde encontrar em nenhuma publicação que tratou do jogo. Durante três meses em Pequim, nunca conseguiu falar com a jogadora, impedido pelo controle do governo sobre o trabalho da imprensa. Conseguiu, porém, falar com a mãe da menina, e descobriu que naquela mulher, que havia vivido parte das transformações por que a China tinha passado nas últimas décadas, residia uma história tão interessante quanto a de sua filha. Outra grata surpresa veio quando Talese conheceu a avó da jogadora:
"Mais velha, ela havia vivido as transformações da China de Mao Tse-Tung, compondo, então, uma painel de três gerações de uma família, que tinha uma bela história de resignação, caráter e perseverança para ser narrada", explica.
Perseverança, aliás, ele cita como a característica fundamental para se fazer bom jornalismo. "Bater em portas", para ele, seria a essência da profissão:
"Bata na porta e diga que você não é ladrão, gângster ou coisa que o valha", diz, afirmando ser este o motivo de seus sempre elegantes terno e gravata, que acabam contribuindo para uma "boa apresentação".
Outro ingrediente que comporia esta receita de contar boas histórias é deixar o Google de lado, indo até onde está a história, com determinação e curiosidade. É assim, resumiu na última e também extensa resposta, que ele consegue escrever reportagens que permanecem interessantes décadas depois de escritas.
* Publicado originalmente em O Globo
1.7.09
Alumbramento e simplicidade em Manuel Bandeira
Crítico apaixonado e dedicado, Davi Arrigucci Jr. (abaixo, na foto de André Teixeira) abriu a Flip 2009 falando de Manuel Bandeira, o autor homenageado deste ano. Analisando alguns poemas, definindo períodos e iluminando características de Bandeira, Arrigucci frisou a capacidade do poeta dizer coisas complexas de forma simples. 
Para ele, Bandeira foi o poeta da passagem da poesia brasileira para a modernidade e foi o moderno que mais leu a poesia tradicional, indo das cantigas medievais à lírica quinhentista portuguesa, passando depois por todos os estilos.
Ele acredita que Bandeira deu um novo sentido ao poético. Espécie de autobiografia, Itinerário de Pasárgada foi o livro em que Bandeira reuniu as reminiscências mais antigas que tinha. Uma corrida de ciclistas, um pátio de hotel, ou qualquer outra lembrança de quando ele tinha cerca de três anos. Bandeira explica no livro que, todas as vezes que voltava a essas memórias quase apagadas, sentia uma emoção diferente. Mais tarde, ligou essas “emoções diferentes” à experiência do poético. Raras as vezes da vida de adulto aquela emoção se repetia. Era a emoção da poética.
A diferença, segundo Arrigucci, entre a emoção poética e a emoção normal do dia a dia é que ela nos dá a sensação de um universo. Esses sentimentos nos dão uma sensação de totalidade completa. Nos abrem para a dimensão do insondável. Bandeira chamou isso de alumbramento (do espanhol alumbrar, que quer dizer parir, mas também pode ser uma iluminação espiritual, um sopro de algo mais).
Esses raros momentos de “emoção diferente” são momentos de alumbramento. É uma espécie de núcleo simbólico da experiência. É uma síntese de uma totalidade. Simbólico porque é um símbolo, que tem um lado metonímico e também uma base de continuidade no concreto.
Isso tem a ver com a simplicidade de Bandeira. Ele cria poesia a partir de uma conversa no bonde, de uma receita de doce, de uma bula de remédio. Pode estar nos amores ou nos chinelos, nas coisas lógicas ou nas desbaratadas. Arrigucci chama de “estilo humilde” esta capacidade do autor. O temo “humilde” refere-se ao princípio do Cristianismo de comunicar coisas complexas de formas simples (como a transubstanciação, por exemplo). Por isso, ele explica, pode parecer que Bandeira está falando de coisas simples, mas está falando de temas muito profundos.
E foi em grande estilo, de forma simples mas conteúdo complexo, que teve início a Flip 2009. Que venha Adriana Calcanhoto e seu show de abertura.
