20.2.07

Três vezes Chico

Eu não fui ao show do Chico. Cinco fins de semana, mais de vinte shows aqui no Rio e eu dei esse mole. Estava sem dinheiro para comprar os ingressos mais caros e sem tempo para conseguir comprar os mais baratos, vendidos exclusivamente no dia do show, uma hora antes.

Estou com tanta raiva de não ter ido que resolvi, numa tentativa de reconciliação com meu maior ídolo, fazer um post exclusivamente para falar disso. Adoro Chico Buarque, como já disse há tempos aqui neste blog quando comentei sobre parte do seu último CD. Para mim, ele é não só o melhor compositor brasileiro, nas letras e nas músicas, como um dos cérebros mais lúcidos que o Brasil já produziu. Tenho tendência a concordar com 99,99% do que ele diz e pensa. Quando discordo, a falta de lucidez é minha.

Levo Chico Buarque o tempo todo no MP3 player e o ouço pelo menos umas três vezes na semana. Sua obra pode ser ouvida durante toda a vida, em diferentes momentos. Naqueles de paixonite aguda, lá estão as inúmeras músicas de amor e as declarações para mulheres que ele insiste não existirem, como as Carolinas, Ritas, Renatas Marias, além das mulheres de Atenas ou as pobres Genis. Para aqueles momentos de revolta com o mundo injusto em que vivemos, a veia política de Chico, sempre pulsante, chega à sua música e faz clássicos, como Apesar de você, Partido Alto, Brejo da cruz e a lúdica Outros sonhos, de safra recente. Chico também consegue falar das coisas do dia-a-dia, como em Cotidiano, Meu caro amigo e Bye bye, Brasil, com a mesma desenvoltura de quem percebe as mudanças históricas que se processam a cada momento, todo dia, e que passam longe dos olhos dos meros mortais, como na inesquecível Vai passar. Ele é um excelente sambista, mostrando que o samba supera qualquer classe: pode ser tão bom no morro quanto no asfalto, feito por ricos ou por pobres. Prova disso são sambas deliciosos como Morena de Angola, Feijoada Completa e Meu Guri. Uma das músicas que mais me faz lembrar meu pai também é do Chico: João e Maria, em que, a partir do universo fantasioso da infância, ele uma das mais bonitas canções brasileiras.

Também existem outras músicas que são indispensáveis em qualquer seleção: A banda, um de seus maiores clássicos, Olhos nos olhos, O Cio da terra, Gente humilde - tema de outro post meu -, Cálice (com Gilberto Gil), Bom conselho, Maninha, Noite dos mascarados, Quem te viu, quem te vê, Morena dos olhos d'água, Construção, Roda viva. Tudo isso sem falar das parcerias históricas com Edu Lobo (mais pros anos 80, rendendo pérolas como Beatriz), Vinícius (na já citada Gente humilde, Valsinha, e com Toquinho em Samba de Orly), Tom Jobim (rendendo a maravilhosa Sabiá, a singela Pois é e a nostálgica Anos dourados, composta em 1986, ano que nasci) e com Caetano Veloso, que renderam momentos inesquecíveis para a TV brasileira em músicas como Vai levando (Mesmo com toda a fama/ Com toda a Brahma/ Com toda a cama/ Com toda a lama/ A gente vai levando). Não posso esquecer também das compostas especialmente para o teatro, como História de uma gata, as três O que será, além de outras já citadas.

Vamos então às outras letras escritas por Chico. Do teatro, Gota d'água está me encarando na prateleira neste exato momento aguardando sua vez na longa fila de futuros livros. Sempre ouvi, no entanto, que o Chico dramaturgo e o Chico escritor não chegam perto do compositor. Ainda assim pesquisei algumas coisas para enriquecer esse post no que se refere à sua obra teatral.

Sobre Gota d'água, adaptação do clássico Medéia, de Eurípedes, para os dias atuais, o crítico Yan Michalski falou: "Não conheço em toda a dramaturgia nacional qualquer precedente de uma linguagem como esta, que combine a musicalidade, a beleza e a dignidade da poesia dramática clássica com um clima verbal de indiscutível contemporaneidade." Na temática de Gota d'água, Chico e Paulo Pontes também conseguiram, segundo Michaslki, manter o argumento da obra de mais de 2400 anos e, ao mesmo tempo, fazer "uma obra intensamente pessoal e original."

Já com Roda Viva, espetáculo de estréia de Chico, levado aos palcos anos antes por Zé Celso Martinez Correia, Yan Michalski foi menos bondoso: "O texto de Chico Buarque de Holanda está longe de ser uma obra-prima ou sequer uma peça destinada a ficar como um marco de alguma importância na dramaturgia brasileira." Ainda assim, em sua crítica, Michalski ressalta que a peça significava uma "série de graves acusações à engrenagem comercial da televisão", ao contar "como um ídolo é artificialmente fabricado, impiedosamente explorado e finalmente jogado fora". O mais interessante, para o crítico, era essa acusação vir de um ídolo que, apesar de muito diferente do personagem da peça, também se servira do mecanismo que agora denunciava, mostrando seu imenso senso crítico.

Ficarei devendo para um outro post uma análise de Budapeste, baseada nas aulas e discussões feitas por Sérgio Mota, meu professor de Literatura na PUC, que disseca o livro de Chico semestralmente para suas turmas. Com talento e precisão incríveis, as análises do Sérgio tornam a experiência de leitura de Budapeste ainda mais interessante. Prometo também para o futuro uma lista de livros, CDs e DVDs sobre o Chico que são indispensáveis para verdadeiros fãs que, diferentes de mim, não faltam a um show sequer de um dos maiores cérebros que essa terra já produziu. Fico por aqui. Que Chico olhe por nós.

14.1.07

Teatro e história: mistura que dá samba



Grandiosidade. Não existe outra palavra para descrever a nova peça de Miguel Falabella, Império, que acabo de assistir no Carlos Gomes, aqui no Rio. A história se passa no século XIX e tem como protagonista a família real luso-brasileira nos últimos dias antes do retorno para Portugal, após a chegada em 1808. Já retratadas em livros, na televisão (Quinto dos Infernos, minissérie global de Carlos Lombardi), e no cinema (Carlota Joaquina, de Carla Camuratti), as aventuras da nossa Coroa chegam agora aos palcos, sob a forma de um musical de dois atos.

O texto, a música, as letras, a iluminação, os cenários, o figurino, o elenco de 22 atores e a lotação dos 685 lugares do teatro só fazem reafirmar aquilo que todos já sabem: Miguel Falabella é um craque. Talvez um dos nossos mais multimídias artistas, ele mostra-se agora também um primoroso letrista. Os números, todos muito bem feitos, têm o mérito de levar a ação adiante, coisa rara em musicais, e as coreografias ajudam a dar o ar Broadway tão difícil, para o bem e para o mal, de vermos nos palcos brasileiros. Destaque, na minha humilde opinião, para três números: um dos primeiros, em que todos, juntos, cantam "Eu nunca vi coisa tão linda"; para "Aonde eu durmo, senhor" cantado pelos dois escravos, e para a cena da Princesa Leopoldina e a amante de D. Pedro, Noemi, que cantam a inteligente "Na cama de um homem".

No elenco, destaca-se Stella Miranda, atriz craque em fazer humor. Como bem disse Barbara Heliodora no Globo, o papel ajuda Stella a roubar a cena. No cinema, Marieta Severo já tinha tido um desempenho magnífico e até Betty Lago o conseguiu na televisão. Carlota Joaquina é um prato cheio para toda boa atriz, primeiro por seu gênio e depois por sua relação com Dom João. Este, por sua vez, é muito bem defendido por Sandro Christopher, ator e barítono. Um dos grandes méritos da peça, também lembrado por Heliodora, é Dom João não ser retratado como costumeiramente se faz, ou seja, um mero comedor de coxas de galinha. Aqui, ele aparece como um marido que sofre com as traições de Carlota, mas a enfrenta quando necessário e é capaz de crueldades, nas suas palavras, "mais do rei do que do homem", como a de enviar para Pernambuco a amante grávida de D. Pedro.

Quanto à História, a peça me trouxe outras perspectivas. Em certo momento, Dom joão defende que, enquanto vários reis europeus, valentes e cheios de honra, permaneceram na Europa à espera de Napoleão, ele preferiu fugir para o Brasil e, por isso, foi o único a sobreviver ao corso sanguinário. Estaria aí a gênese do jeitinho?

A única crítica negativa que faço à peça é a necessidade da platéia ter um conhecimento prévio de História que, venhamos e convenhamos, é difícil no Brasil. O papel de narrador, lembrou minha tia que estava comigo e minha mãe, ajuda nesse ponto. Na história, quem cumpre essa função é o pintor Debret, que abre a peça numa conversa em Paris, com seu ajudante, anos e anos mais tarde. Lembrando dos maravilhosos anos que viveu no Rio de Janeiro, é ele quem conta os causos vividos por aqueles personagens. O problema é que Debret só aparece três vezes durante a peça, o que dificulta a compreensão de um espectador menos familiarizado com o enredo histórico.

Stella Miranda, como Carlota Joaquina

Ao longo da peça, não me saía da cabeça como deve ser difícil ensaiar um musical com 22 atores. E o pior: existem vários números com todos juntos, ensemble, como se diz. Fiz um ou dois anos de teatro quando era criança e sei como é difícil ensaiar uma cena com três, quatro personagens. Que dirá com 22! Mais um motivo para reverenciarmos o polivalente Falabella, que escreveu o texto e as letras, além de dirigir o espetáculo.

Programa mais do que recomendando, Império está em cartaz no Carlos Gomes sem data marcada para se despedir. Por 25 reais, preço relativamente barato se comparado aos 100 reais cobrados por Mademoiselle Chanel, o musical é diversão na certa. Pode confiar.

13.1.07

Logo ali, na Piauí


Aí vai o primeiro Link não patrocinado, seção que inauguro formalmente hoje no meu queridíssimo blog. E quem tem a honra de estrear neste disputadíssimo espaço é a revista Piauí.

Lançada pelo cineasta João Moreira Salles e pelo editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, a revista Piauí chegou em outubro de 2006 já superando expectativas. A primeira edição, com tiragem inicial de 70 mil exemplares, fez tanto sucesso que foi necessária uma segunda impressão para suprir a demanda das praças Rio e São Paulo. O diferencial da revista explica seu sucesso: não é uma revista de cultura, tampouco uma revista política ou uma publicação de debates intelectualizantes. Sem colaboradores fixos, a condição para algum texto entrar nas páginas de Piauí é ser um bom texto, ser, nas palaras de Moreira Salles, uma história bem contada, com começo, meio e fim. E isso pode ser feito através de crônicas, contos, reportagens, quadrinhos, fotos, ou qualquer outra forma de expressão. Voltada para um público órfão de boas revistas, Piauí escapa da superficialidade corrente na grande imprensa e na maioria das semanais brasileiras. Com o elenco de craques que vêm escrevendo em suas páginas (Ítalo Calvino, Ivan Lessa, Salman Rushdie), a revista de João Moreira Salles promete ter vida longa, coisa rara para quem decide ousar no meio editorial brasileiro.

No site, há bastante coisa. Algumas seções da revista estão gratuitamente no site, as edições antigas estão quase completas. Tem muita, muita coisa boa. Vale à pena perder algumas horas no site. Mas o melhor mesmo é a opção de assinar a revista por módicos 15 reais em cinco vezes, que você pode fazer clicando no link abaixo. Aproveite.

Ah, vale ressaltar que, apesar da assinatura ser via Editora Abril, a revista não tem nada a ver com a empresa dos Civita. Pelo contrário. A proposta de Piauí é oposta ao manifesto semanal à superficialidade que é a Veja.

Clique aqui

11.1.07

A campanha já começou


A capa da Veja São Paulo dessa semana não deixa dúvidas: a imprensa já está empenhada para a próxima campanha presidencial, em 2010. Na matéria de capa sobre José Serra, a revista descreve o novo governador com um intelectual, colecionador de DVDs e leitor voraz, além das já conhecidas características (trabalhador, pouco dorminhoco e portador de um leve mau-humor com a incapacidade administrativa de seus assessores). Dócil com as crianças e grande realizador como ministro da Saúde, segundo a revista, Serra agora tem dez pontos a cumprir para se tornar presidente do Brasil em 2011. Um deles, o ex-ministro de FH nem precisa cumprir: ele já é o candidato favorito de dez entre dez barões da mídia.

Para falarmos de assuntos mais amenos do que as capas da Veja, vamos a uma recomedación de Guillermito aqui. Em vez de Big Brother, assistam Truffaut O conselho pode parecer pedante, até metido a intelectual, mas é verdadeiro. Acabou a novela (se possível, veja antes da novela), nada de assistir ao Big Brother VII: assista Truffaut. Nunca tinha visto nenhum filme do cineasta, então aluguei Fahreinheit 451 semana passada, seu mais famoso filme (e que deu origem ao nome do filme de Michael Moore, Fahreinheit 9/11). Deixei para ver na véspera da devolução, coincidentemente o mesmo dia de estréia da nova edição do reality show da Globo. Feliz, muito feliz, coincidência. O filme, sem dúvida, é um dos melhores que assisti na vida. A história ode ser descrita como uma ode à força do livro, ao poder da leitura de nos fazer pensar e refletir sobre a realidade circundante. Pode também ser descrito como uma crítica ferrenha à natureza alienante da televisão. Pode ainda ser um retrato de um futuro em que a mão forte do Estado tirou do indivíduo até mesmo o direito de livre pensamento, o que aproxima a obra do livro de George Orwell, 1984. O mais interessante é eu ter visto o filme no mesmo dia que o Big Brother reestreou. Um filme que me fez pensar um trilhão de coisas versus um programa que só exibe peitos e as frases vazias de Pedro Bial. Bom, por mais que eu goste de peitos, não pretendo assistir novamente ao Big Brother, coisa que já fiz e de que não me arrependo. Tomei uma decisão: vou alugar toda a obra do Truffaut. Garanto que o meu paredão vai ser muito mais interessante.

Besos

29.12.06

A boa e velha felicidade

Nesta semana do ano, todas as coisas e cochichos giram entorno do tão esperado dia 31. Só se fala nisso. Todos planejam a roupa que vestirão, mulheres correm para os cabeleireiros, uns fazem resoluções para o ano que chega, outros dão nota para o que vai. É um corre-corre para cumprir prazos, ir a festas de fim de ano, participar de amigos-ocultos, dar beijo de ano-novo em fulano, abraço em cicrano, trocar os presentes e por aí vai.

É cansativo, muito mais cansativo do que o Natal, porque gera mais expectativa e mais tensão. Enquanto o Natal é uma festa associada à família, à união, à celebração - tão pouco feita - dos valores pregados por Cristo, o Réveillon é invariavelmente associado à farra, à festa, a aproveitar ao máximo os primeiros momentos do ano, como se não tivéssemos um ano inteiro para viver. A programação intensa que o Rio sempre promove mostra isso. Shows e mais shows, rios de dinheiro gastos para entreter a todos e saudar o novo ano com uma festa inesquecível. Ora, com o dinheiro gasto para trazer Black Eyed Peas e Infected Mushroom para Ipanema na hora da virada, poderíamos fazer mil shows ao longo do ano, para um público muito maior do que o que será beneficiado. Eu sei, eu sei, há o turismo envolvido, a importância de renovar a esperança de todos, e tudo mais. Mas, acredite, há também esse lado da necessidade de fazer todos aproveitarem ao máximo os primeiros instantes do ano. Isso acontece no mundo inteiro, não é mais uma exclusividade carioca, como o Cristo ou o Bondinho. É fruto da cultura imediatista em que vivemos. Por causa dela, a forma como passamos a meia-noite determina o desenrolar dos outros 365 dias do ano, ou seja, devemos fazer aquele primeiro momento ser magnífico para que o resto do ano também seja. Com todo esse peso que colocamos sobre o pobre dia 31, não é à toa que o fim de ano é tão cansativo, tão estafante.

No entanto, e agora essas linhas ganham sentido, acredito que este ano devemos mais do que nunca aproveitar com a maior intensidade possível esses primeiros segundos de 2007. É importante mostrarmos a este estado de coisas que estamos vivendo nos últimos dias aqui no Rio, a essa violência absurda, que estamos vivos. Mostrar que somos nós mesmos que mandamos nas nossas felicidades. Dizer que não vamos deixar que tiros e ações terroristas tirem o nosso direito de sermos felizes. O nosso direito de ir e vir, de sair e voltar. O direito negado hoje ao policial morto que comemoraria mais tarde o aniversário de sete anos da filha. Não vamos deixar que boatos e traficantes consigam tirar o nosso sono, nem estragar a maior festa da nossa cidade. Vida normal, gente, ou melhor, vida mais feliz. Vamos cantar, gritar, pular, dançar, amar, beijar, transar, chorar de felicidade, quebrar a cara se preciso for. Vamos fazer tudo para mostrar que não existe nada mais subversivo a esse estado de coisas do que a felicidade. A boa e velha felicidade.

13.12.06

Vou fingir que não ouvi

Espero que as palavras do Lula ao receber o prêmio de brasileiro do ano pela Istoé não reflitam o que o presidente realmente pensa. Seria decepcionante constatar que uma das pessoas que mais admiro pensa dessa forma. Dizer que ser de esquerda é ter problemas é o mesmo discurso usado contra toda a esquerda ao longo do século XX. Basta lembrarmos do discurso anti-comunista de que "a esquerda era doente mental".

Fiquei triste, realmente triste com essas palavras do Lula. Espero que seu segundo governo, pelo qual me empenhei - e muito - para que acontecesse, não traduza o que ele disse na última segunda. Bom, se lembrarmos de muita coisa que ele disse antes da eleição de 2002 e que não pôs em prática no atual mandato, veremos que isso não tem muita chance de acontecer.

De qualquer forma, agora, mais do que nunca, mais do que quando os escândalos de corrupção explodiram, mais do que se descobrissem dinheiro dentro da calcinha da Dona marisa, estou com um pé atrás com o Lula. E repito: triste, muito triste. Deus queira que esse tenha sido mais um discurso de platéia, ou seja, feito apenas para agradar a platéia de Antônios Ermírios e Gerdaus que compunham o auditório da Istoé. Que o verdadeiro Lula, o Lula em sua essência, seja o que discursa em palanque, o que fala coisas às vezes com um quê de exagero, mas coerentes com a sua biografia e consoante com os anseios do povo que o reelegeu.