29.10.09

O perigo da falta de uma oposição

Sei que hoje é quinta e comentar um artigo publicado no jornal anteontem pode parecer anacrônico, mas, vá lá, vale a pena. A dona do texto é a jornalista Miriam Leitão, lá do Globo. Na sua coluna de terça, Miriam criticou a falta de uma oposição atuante no país. Essa é uma observação feita desde o primeiro mandato do presidente Lula, mas, confesso que só agora, pensando sobre o que a Miriam comenta, percebi como é grave o que estamos vivendo. Espia uma parte do texto, que pode ser lido na íntegra no blog da Miriam:

"Oposição não é apenas para colher assinaturas para CPIs, que abandonará assim que o governo conseguir os postos de presidente e relator; nem é para ficar contra sistematicamente tudo, como ficava o PT. Seu papel é mostrar outros caminhos e escolhas; criticar, fiscalizar, propor.

(...)

A democracia para ser inteira tem que ter governo e oposição. Há desafios imensos para o país e os partidos que não estão na base parlamentar têm que saber o que dizer sobre eles. Não porque está se aproximando uma eleição presidencial, mas sim para que se saiba por que são oposição."

Embora não concorde com algumas das críticas feitas por ela ao governo, concordo com todas as que fez à morosidade da oposição. Não acho que seja certa a opção raivosa adotada em alguns momentos nesses quase sete anos de Lula. Mas essa pasmaceira é ainda mais perigosa.

5.10.09

Produção obscura de Scorcese e doc sobre o filme são dobradinha do Festival*

Mistério, preciosidade cinéfila, reflexão realista sobre preocupações existenciais. Não importa o motivo: era grande a expectativa pela chegada aos cinemas brasileiros de "American boy: o retrato de Steven Prince" (veja trecho) , obscuro documentário de Martin Scorcese sobre seu amigo Steven Prince, filmado em 1978 e em cartaz no Festival do Rio até quinta-feira. Além desse, a programação do festival traz outro documentário, "American Prince", rodado 30 anos depois pelo diretor Tommy Pallotta, em que é contado um novo capítulo da turbulenta vida de Prince, o vendedor de armas de "Taxi driver" (clássico de 1976 dirigido por Scorsese).

Scorsese entremeia depoimentos de Prince filmados na mansão do ator George Memmoli com outros materiais audiovisuais. Quando ele relata a infância de judeu de classe média, por exemplo, a edição mostra cenas caseiras de quando o ator era criança. A entrevista avança pelos tempos em que Prince foi roadie do cantor Neil Diamond e chega até o pós-Woodstock, quando era viciado em heroína. Trata de forma aberta e sincera sua obsessão por armas e, ao conversar com o diretor (os dois dividiram um apartamento na juventude), consegue tratar de forma realista temas profundos, sem descambar para o sentimentalismo.

Já o filme de 2008 aborda também o trabalho documental de Scorsese. Apesar de ter sido dirigido por uma das principais grifes do cinema americano, o primeiro documentário nunca teve um lançamento decente e só pode ser visto em retrospectivas da obra do diretor ou em grandes festivais. Pensando na dobradinha "American boy" e "American Prince", e na curta duração de ambos (duram 50 minutos cada), o Festival do Rio programou a exibição dos dois para as mesmas sessões.

Mas quem não conseguir assistir aos filmes no festival poderá apelar para a internet. Mobilizado pelo difícil acesso ao filme de Scorcese, Tommy Pallotta decidiu liberar seu filme para download, gratuitamente. Basta uma ida aos cinemas escalados na programação até quinta-feira ou uma rápida procura em sites de busca para que, por meio de "American Prince", diminua a distância entre o público e as cultuadas facetas de Steven Prince.

*Publicado originalmente no site do Globo.

3.10.09

Fátima Toledo e o 'ser ou não ser' diretora de cinema

Um matador de aluguel doente é contratado para matar uma prostituta fugindo do marido e os dois se apaixonam. A sinopse de "O príncipe encantado', curta dirigido por Sérgio Machado e pela preparadora de elenco Fátima Toledo, tem traços que se adequam com perfeição ao método de trabalho de Fátima, marcado por filmes como "Tropa de elite" e "Cidade de Deus". Seu mérito, idolatrado por alguns, criticado por outros, é fazer com que os atores se entreguem ao papel a que se prestam e, graças a um elaborado processo estimulado por ela, consigam dar verdade à interpretação.

Estreante atrás das câmeras, Fátima conversou com o site do GLOBO sobre as diferenças entre treinar e dirigir e explicou por que ainda se considera mais "uma preparadora de elenco".

Assista a um trecho do curta de Fátima Toledo e Sergio Machado

- Ainda estou me introduzindo no universo de direção. Antes do meu longa, estou fazendo curtas e aprendendo muito. Como preparadora, olho muito os atores, mas na direção tenho que ver o todo. Estou tendo dificuldade.

A principal delas é se desapegar da função até então exercida. No novo curta - que será exibido até segunda-feira dentro da Première Brasil (veja horários abaixo) -, ela e Machado convidaram outro preparador de elenco - o ex-assistente de Fátima, Michel Dubret - para a tarefa de preparar os atores. No início, ela ficou "divididinha" em aceitar a ideia de outra pessoa fazendo seu trabalho

Misturando atores com níveis diferentes de experiência, o curta tem um personagem feito por um não-ator. Além disso, aparecem prostitutas que trabalhavam na casa usada como locação. E quem a preparadora/diretora prefere em seus filmes: os profissionais ou os que nunca trabalharam com interpretação?

- Quero dirigir quem se entrega de verdade, sem distinção da experiência da pessoa. Alguns atores têm um tempo de resistência maior para entrar no personagem, o que faz a gente perder um tempo enorme para quebrar essa resistência.

Atores ou não, aqueles que passam pela mão de Fátima, seja nos elencos em que ela prepara, ou nos cursos que ela dá em sua escola na Vila Mariana, em São Paulo, são submetidos a experiências limites, fundamentais, segundo ela, para que se chegue à verdade do que está vivendo, e não a uma "mera" atuação. Criticado por alguns diretores e atores, seu método teve início em 1980 com "Pixote, a lei do mais fraco", de Hector Babenco. De lá até "Quincas Berro D'água", o último filme, também de Sérgio Machado, cujo elenco treinou, Fátima teve parcerias com grandes nomes, como Fernando Meirelles ("Cidade de Deus") e Walter Salles ("Central do Brasil" e "Linha de passe").

O exemplo do personagem Capitão Nascimento em "Tropa..." é clássico da dureza de seu trabalho. Wagner Moura protagonizou uma dessas "situações limite". Em uma das sessões de preparação, Fátima pediu ao capitão do Bope Paulo Storani que falasse mal da família de Wagner. Ao ver seus parentes serem atacados, o ator acabou partindo para cima do policial e quebrou seu nariz.

Com "Quincas...", pôde levar seus exercícios à comédia, gênero com que até então não havia trabalhado. Para alguém acostumado a buscar as "angústias, abismos e lados sombrios" das pessoas, material rico para intrepretações em dramas, achar o ritmo e o tempo do humor foi desafiador:

- É um filme diferente da linha em que estou acostumada a desenvolver. Foi maravilhoso. Descobri coisas incríveis trabalhando nesse último filme do Sérgio. A verdade que busco pode estar em qualquer gênero e eu trabalho para vestir essa verdade no personagem.

A primeira experiência, que em breve será ampliada para um longa, foi enriquecedora também para o olhar de Fátima como preparadora. Agora, ela acredita estar apta para trabalhar com mais rapidez, inclusive em filmes de baixo orçamento, quando o prazo que tempara afiar o elenco é reduzido. A objetividade e o "saber ir ao ponto", por exemplo, características essenciais ao diretor quando reúne toda a equipe e liga a câmera, foram duas aptidões conquistadas com o curta.

O nome provisório do longa é "Sobre a verdade". Em fase de captação e programado para começar a ser rodado no segundo semestre de 2010, o filme discutirá o absurdo da acusação irresponsável.

- Hoje, quando há uma acusação, logo outras 10 mil pessoas estão em cima do acusado, sem noção do que estão fazendo. A dor de cada um é projetada para arrebentar com o outro.

Fora a direção (a cena ao lado é de divulgação do curta), Fátima não faz planos para se espraiar por outras funções no set. Roteiro, por exemplo, ela acha que não conseguiria escrever, por só se considerar capaz de "sentir o filme" quando ele já está em execução:

- Eu vejo os atores e começo a ver o filme, começo a descobrir e a me identificar. No papel, consigo ver a história, a dramaturgia, mas o personagem só me comove no papel. Quando vejo os olhos do ator, isso me dá mais direções.

* Publicado originalmente no site do Globo.

2.10.09

Artes plásticas ganham a tela do Festival

Da arquitetura moderna à arte contemporânea, passando pelo Naif: diferentes mostras do Festival do Rio oferecem um variado cardápio de filmes com temática ligada às artes plásticas. "Reidy: a construção da utopia" e "Cildo", ambos documentários brasileiros, e o longa de ficção "Seraphine", parceria entre França e Bélgica, são as três obras responsáveis por, a reboque dos tradicionais filmes sobre música sempre presentes no evento, ampliar o leque metalinguístico da programação.

O primeiro a estrear foi "Cildo" (ao lado, cena de divulgação), documentário dirigido por Gustavo Rosa de Moura que faz um mergulho sensorial na obra de Cildo Meireles, um dos artistas brasileiros com maior prestígio no exterior. Fundamental para a cena artística contemporânea do país desde os anos 70, Meireles já foi exposto na Tate Modern e sempre é lembrado como dono de um universo criativo que consegue unir política e discussão estética com grande habilidade. O filme é conduzido por entrevistas do próprio artista, que fala e reflete sobre suas obras e ideias.

Nesta quinta-feira, o segundo da lista chegou às telas do Festival: "Reidy - A construção da Utopia" (ao lado, em cena de divulgação), sobre o arquiteto Afonso Reidy. Pioneiro da introdução da arquitetura moderna no Brasil, Reidy teve sua vida a obra transformada em documentário pelas mãos de Ana Maria Magalhães, sobrinha de sua mulher, a intelectual Carmem Pontinho. Defensor de uma arquitetura de traços simples e puros, evidenciados hoje no Aterro do Flamengo, projeto em que teve participação, e no Museu de Arte Moderna, que desenhou em 1954, Reidy tem uma concepção humanista sobre sua arte, perspectiva que a diretora procurou retratar no longa:

"Poucas profissões exercem igual fascínio. Reúnem em si duas atividades aparentemente antagônicas, mas que se completam: a poesia e a construção", diz o narrador do vídeo promocional do documentário.

A mistura de depoimentos do urbanista Lúcio Costa e de diversos outros grandes nomes da arquitetura brasileira, como Paulo Mendes da Rocha, com imagens das criações de Reidy foram os pontos altos da primeira exibição do documentário, nesta quinta-feira, na Première Brasil Retratos, no Cine Odeon.


Já o drama franco-belga "Séraphine" (acima, em cena de divulgação), de Martin Provost, chega com a pompa de ter faturado este ano sete César (o Oscar francês), incluindo o de Melhor Filme. O longa narra a extraordinária vida da francesa Seraphine de Senlis, mulher nascida em 1864 que foi pastora e dona de casa antes de se transformar em pintora e submergir-se na loucura. A produção, parte da mostra Expectativa, tem sua primeira sessão marcada para segunda-feira (05/10), no Estação Vivo Gávea.

* Publicado originalmente no site do Globo.

1.10.09

Todos falam sobre Chico

"O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando."

O trecho é a abertura de uma crônica sobre Chico Buarque, de outubro de 1966, escrita por Carlos Drummond de Andrade e publicada no extinto jornal carioca "Correio da Manhã". Encontrei a preciosidade por acaso, no fim desta manhã de quinta-feira, 1 de outubro de 2009. Tento me lembrar agora como cheguei ao texto, mas os neurônios desapareceram e não consigo saber. Bom, o fato é que descobri essa página do site oficial do Chico, que condensa diversos textos publicados sobre ele, sendo o primeiro este de Drummond e o último um da "Folha de S. Paulo", de julho deste ano.

Entre um e outro, ainda há outras maravilhas para buarquemaníacos como eu. Que tal um texto de Clarice Lispector? Ou Sergio Buarque de Hollanda falando do filho? Tem ainda Mário Prata decifrando o personagem Julinho de Adelaide, criado por Chico para driblar a ditadura, e diversos textos especiais feitos para comemorar seus 60 anos em 2004 (inclusive os de um maravilhoso especial que o JB fez, no Caderno B).

Dê um pulo lá, nem que seja para passar outubro inteiro lendo sobre Chico Buarque. "Pois de amor andamos todos precisados".

30.9.09

Chacretes e calouros transformam Festival do Rio numa imensa 'Discoteca do Chacrinha'*

Esqueça os cinéfilos e suas roupas moderninhas, os diretores e suas discussões cult, os atores e seus deslumbres com fotógrafos e fãs. Nesta quarta-feira, a Première Brasil do Festival do Rio só teve um dono, ou melhor, algumas donas. Rita Cadillac, Fátima Boa Viagem, Vera Furacão, Cabocla Jurema, Regina Polivalente e outras ex-chacretes desapropriaram o tapete vermelho do Cine Odeon para assistir à primeira exibição em terra carioca de "Alô, alô, Terezinha", documentário de Nelson Hoineff sobre o apresentador Chacrinha.

Numa noite de lágrimas, críticas e risos, muitos risos, Cadillac e sua turma transformaram os dois andares do Odeon em um auditório chacrinesco, tão divertido quanto as quartas-feiras de quase quarenta anos atrás, quando a tradicional "Discoteca do Chacrinha" plugava os brasileiros nos lançamentos do showbizz da música e tornava mais palatável a semana dos milhões grudados em frente à TV.

- Tá-tá-tá-Ritááá Cadillac! - berrou Fátima Boa Viagem ao descobrir que a enorme loura ao seu lado era a ex-colega.

- Querida! Que bom te ver! Ah, se você soubesse como é bom - sussurrou Rita, lembrando que as duas não se viam desde 1983.

Roda, roda, roda e avisa que, fora os sorrisos, beijinhos e abraços, nenhuma quis comentar, pelo menos antes do filme, os polêmicos e debatidos trechos em que as ex-chacretes Índia Potira e Loira Sinistra dizem já ter feito programa:

- Prefiro não comentar - brincavam, saindo pela tangente.

Cadillac (ao lado, em cena de divulgação do filme), todo-poderosa, prometia fazer um comentário no fim da sessão. Depois de gastar litros de lágrimas durante a exibição, preferiu economia nas palavras:
- Gostei.

Já Regina Polivalente, embora com olhar sério e cuidado ao escolher cada palavra, foi um pouco além na avaliação sobre a polêmica:

- Acho que cada uma seguiu o seu caminho. O filme mostrou isso. Foram escolhas diferentes e hoje, anos depois, cada uma sabe de si.

Com preocupações mais amenas, Lílian Martins, caloura que venceu uma das tardes de sábado do "Cassino do Chacrinha", em 1987, lembrou que a única crítica que recebeu foi do mítico jurado mal-humorado Edson Santana, que desancava os competidores:

- Ele disse que eu era muito bonitinha, mas tinha desafinado. Mas que fique bem claro: eu nunca recebi buzina! - disse, ao lado de outro calouro, Manoel de Jesus, este buzinado em vários sábados.

Quem não chegou despercebida, é claro, foi Elke Maravilha, outra jurada de carteirinha dos sábados do apresentador. Em um exuberante vestido de lã roxa e com os cachos louros e grossos de sempre, Elke salpicava beijos de batom vermelho e cumprimentos carinhosos ("Oi, criança, tudo bem?"):

- Quando penso no Chacrinha, o que vem à minha cabeça é a sua brasilidade. Aquele sim era um brasileiro! - derramava-se.

No segundo andar do Odeon, tomando uma água mineral no restaurante, o cantor Byafra (desde 1998, ele trocou o "i" pelo "y" para evitar aparecer na mesma página da guerra civil nigeriana nos sites de busca) preferia o recolhimento à confusão do tapete vermelho.

Sobre o trecho de "Alô, alô, Terezinha" que virou febre na internet - a cena mostra o cantor sendo atingido por um parapente enquanto cantava seu sucesso "Sonho de Ícaro" , próximo ao Museu de Arte Contemporânea, em Niterói -, ele manteve o humor:

- Teve mão do Chacrinha naquilo ali. Tenho certeza que foi ele quem empurrou o parapente em mim (risos).

Emocionado no fim da sessão, a quarta a que assistiu, Leleco Barbosa, filho de Chacrinha e diretor do programa do pai durante anos, misturava choro e riso no esforço para defini-lo:

- Ele era indirigível. Eu dirigia o programa, pois fazer isso com ele era impossível. Mas, lá em casa, Dona Florinda (mulher do apresentador e mãe de Leleco) conseguia.

Calouros, jurados, chacretes, filhos e pessoas da produção do documentário atravessaram a rua, depois da exibição, para, ao som do "Terezinhaaaa!" e de outros bordões de Chacrinha, lembrar no Passeio Público Café o aniversário do apresentador, que seria comemorado neste 30 de setembro.

*Publicado originalmente no site do Globo.