1.6.08

Prosa de romance, precisão de reportagem

Livro reportagem de John Hersey, Hiroshima, além de triste narrativa sobre efeitos da bomba atômica, é jornalismo literário da melhor qualidade

Em agosto de 1946, quando o chinês John Hersey viajou até Hiroshima, no Japão, para fazer uma reportagem sobre os efeitos causados na vida de seis pessoas pela bomba atômica jogada um ano antes, grande parte do mundo ainda não havia se dado conta da gravidade do ato. O lançamento da bomba era tido como responsável pelo fim da guerra e os Estados Unidos colhiam os louros por colocar um ponto no conflito de quase uma década. Publicada em uma edição inteira da The New Yorker, a reportagem de Hersey causou imensa repercussão entre jornais e revistas da época, chegando a ser lida na íntegra por uma emissora de rádio americana, a BBC inglesa e de outros países. Quarenta anos depois, Hersey retornou a Hiroshima para mostrar nas mesmas páginas da revista americana como haviam sido as vidas dos seis personagens que protagonizaram a primeira reportagem. Juntas, as duas deram origem ao livro Hiroshima (R$ 37,50), publicado em 176 páginas pela Companhia das Letras em 2002 para dar início à sua coleção de jornalismo literário.

O livro poderia, no entanto, ser perfeitamente confundido com outros romances da editora, por mesclar com maestria jornalismo e literatura, a ponto de ter sido eleito o melhor exemplo do gênero em toda a imprensa americana do século XX. O pé na literatura é tão grande que uma pesquisa no Google com as palavras Hiroshima e Hersey remete a um site que classifica o livro como uma novel – romance, em inglês. Uma a uma, estão ali todas as características de uma boa reportagem. A apuração precisa, com riqueza de detalhes fundamental para desconcertar americanos que ainda faziam piadas sobre a bomba e a viam apenas como mais uma novidade tecnológica produzida pelo homem; a informação tratada de maneira a transcender a frieza dos números de mortos – pelo menos 100 mil pessoas – e feridos; a relativização, quando japoneses deixam de ser mostrados como os inimigos de uma guerra recém-acabada e passam a ser mostradas como pessoas, que têm suas crenças, seus valores e suas razões para acreditar e lutar por seu país. Tudo sem apelar para o fácil maniqueísmo de inverter os papéis e colocar japoneses como vítimas e americanos como algozes. Finalmente, as sutis conclusões de Hersey a partir dos fatos, como quando diz que os sobreviventes da bomba tinham dificuldade para ter filhos, talvez “a natureza defendendo-se de si mesma”.

Os seis personagens escolhidos por Hersey como principais – a jovem Toshiko Sasaki, os médicos Masakazu Fujii e Terufumi Sasaki, a viúva Hatsuyo Nakamura, o jesuíta Wilhelm Kleinsorge e o pastor metodista Kiyoshi Tanimoto – servem de fios condutores para que outras histórias se desnudem, por meio de pessoas que, tal qual num romance, cumprem rápidas jornadas, muitas delas de sofrimento após o lançamento da bomba e a maioria rumo à morte. As horas, os dias, as semanas e finalmente o ano seguinte ao ataque são permeados pelas dúvidas dos japoneses e especialmente dos hibakushas – como passaram a ser chamados os sobreviventes à bomba – sobre o que teria acontecido com Hiroshima. As primeiras teorias, ingênuas, acreditavam que aviões haviam jogado gasolina para em seguida incendiar toda a cidade. A ingenuidade volta a aparecer quando, menos de um mês depois, esses mesmos japoneses, embevecidos, escutam pelo rádio a mensagem do imperador dizendo que a guerra havia acabado – era a primeira vez que ouviam sua voz. Essa passagem é um exemplo perfeito de como há uma grande relativização em relação à cultura japonesa, tão diferente à época da ocidental. Quando retorna à cidade, em 1986, Hersey reconstitui a vida dos seis e mostra a resignação e a capacidade de superar as tragédias particulares que haviam explodido junto com a bomba.

Democrata convicto, Hersey se opôs toda sua vida à fúria militar dos republicanos americanos. Teve, em Hiroshima, a pretensão de que conseguiria mostrar para o resto do mundo e para seu país em especial a desgraça que uma guerra é capaz de produzir. O comportamento dos Estados Unidos, nas décadas seguintes e no início do século XXI, mostrou, no entanto, que ele havia falhado. Caso haja uma nova Hiroshima, não haverá o talento de John Hersey para fazer o mesmo. Nem dele, nem de ninguém.

6 comentários:

J. disse...

Ah, fiquei com vontade de ler.

Douglas Lourenço disse...

queria só dizer que seu blog é um dos melhores que vi...abraços

Unknown disse...

Os EUA não ouviriam nem sua 'mãe' e tivessem uma.

Não conhecia esta história e me interesser em ler.

Não acho tarefa fácil abordar um evento desta proporção da maneira que você diz Hersey o fez.

http://coerenciacontraditoria.blogspot.com

Fernando Gomes disse...

Eu tô querendo ler esse livro faz um tempo, mas nunca me sobra tempo.

http://www.andisaidgoddamn.blogspot.com/

YagoMurakami disse...

Deve ser um ótimo livro, mas gosto mais de comédias...
abraços!

http://wallnosekai.blogspot.com/

Anônimo disse...

Bem informativo .. e desperta a curiosidade para a leitura..

parabéns.. eu tb fiquei com vontade de ler o livro..