14.7.08

Por que minhas mãos suam

Assistir semana passada ao depoimento do pai desse garoto que morreu aqui no Rio, metralhado pela PM, me fez pensar sobre os efeitos do medo em nossas vidas. Não por acaso, estou lendo o livro Medo Líquido, do sociólogo Zygmunt Bauman, que foi lançado no Brasil, se não falha a memória, ano passado. No livro, ele explica que o medo é inerente tanto aos animais quanto aos homens, mas os primeiros não sofrem de um tipo de medo que nós, pobres seres humanos, sofremos: o medo derivado.

Ele define essa forma de medo como o sentimento de ser suscetível ao perigo, “uma sensação de insegurança e vulnerabilidade” fruto de visões de mundo que as pessoas absorvem. É verdade que o mundo está cheio de perigos que podem se abater sobre nós a qualquer momento, mas nem sempre, quando sentimos medo, há uma ameaça genuína que justifique isso. Para Bauman, portanto, uma pessoa que tenha absorvido visões de mundo que incluam a sensação de insegurança tende a sentir medo mesmo sem estar em perigo. Citando o exemplo do bug do milênio, que foi alardeado como uma tragédia mas se mostrou uma grande farsa, Bauman diz que muitos dos medos que sentimos na contemporaneidade são, na maioria dos casos, irreais. Quem conhece alguém que já tenha sido contaminado pelo mal da vaca louca? Quantos parentes seus já foram vítimas de ataques terroristas? Seu vizinho alguma vez teve o rim extraído por quadrilhas transnacionais?

É claro que há os medos justificados, mas até esses são redimensionados. Para cima, bem para cima. No início deste ano, O Globo trouxe uma reportagem de capa em que mostrava como uma mãe havia treinado o filho de cinco ou seis anos para atender a ordens do tipo “Abaixa!”, “Se joga no chão”, “Vai pra debaixo da cama”. Isso é muito triste, muito mesmo. Cresci em uma cidade bastante violenta, o Rio de Janeiro, mas conheço dezenas de pessoas que nunca foram assaltadas e sequer viram alguma arma na vida. Isso não impede que o medo seja generalizado. Os que não o sentem são a exceção. A tristeza é que, na minha infância, esses comandos eram inimagináveis e o medo não era sentido por todos. Mas hoje, aqui no Rio, e acho que em boa parte do Brasil, já interiorizamos há muito as tais visões que causam o medo derivado, descritas por Bauman. Isso não é responsabilidade da mídia, que mostra a violência, mas sim situação que é realmente crítica.

Não tenho filhos e hoje teria muito medo de colocar um no mundo. Não me espantaria que essa sensação leve casais a decidir não ter filhos. Sinto aflição ao ver que a única solução (solução?) que se apresenta à sociedade é a de uma polícia homicida, cuja sede de matar só vira manchete quando a vítima da vez é uma criança de classe média. O extermínio, temor principal de Zuenir Ventura ao escrever seu Cidade Partida, está acontecendo. A população aplaude. E minhas mãos suam.

4 comentários:

ÍCARO GIBRAN disse...

Parabéns pelo texto!
Você tem um estilo de escrita cheio de particularidades, e personalida, claro.
Gostei do tema atual, e do conteudo do seu blog. Ainda estou lendo postagens mais antigas.
Mais uma vez, parabéns.

Karla Nazareth disse...

fico cá pensando se o ser-humano sempre não teve essa necessidade de sentir esses medos derivados - afinal, muitos em todos os tempos, se aproveitaram disso para garantir alguma espécie de poder sobre a maioria.

Bel disse...

Infelizmente o medo está se tornando parte do nosso ser e estar.Nem creio que haja alguém que consiga bater no peito que não tem algum tipo de medo.Paradoxalmente,o pior de tudo isso é saber se o ser humano consegue viver sem ele ?

Teo Brito disse...

O que não podemos é "deixar de viver" por conta do medo ou da situação em que vivemos. Mas a nossa rotina já mudou, isso é certo.

Sobre o livro, me indicaram esse! Vou procurar!

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Guilherme, seu pedido foi atendido no Tocafitas #3.

Um Abraço,